No Gramofone

BOWIE NOS LEVA AO FUTURO

 

    Coincidentemente umas duas semanas antes da morte de David Bowie (1947-2016) minha amiga que ama tanto livros quanto eu, me falou de uma promoção em um site de um livro sobre o artista, o preço era tão bom, o livro tão bonito e o personagem tão enigmático que não hesitei em comprar. Agora tenho um livro laranja com o rosto de Bowie na minha mesa de centro e na maioria das vezes  entro em casa cantarolo os versos de “Golden Years”.

    Bowie era muitos e falar o quanto ele original é pouco e lugar comum, porque em sua figura temos (Mick Jagger em êxtase, Marlene Dietrich cantando no cabaré, Felline falando os podres da sociedade, Twiggy embelezando a cena, Andy Warhol revolucionando). Foram cinco décadas de criatividade imensurável. Bowie foi uma grande expressão de seu tempo, sua música aponta caminho que nos conecta ao futuro. Ele foi além de um ídolo pop, era conceitual, andrógino, sombrio. Ouvindo suas músicas posso me sentir na Londres dos anos 70, ou nos coloridos anos 80 dominados pela cocaína, ou ainda passeando com as vítimas da AIDS dos anos 90. Musicalmente ele transita entre o rock, soul, punk, disco, entre outros estilos. Em fotos, discos ou no cinema foi capaz de se refazer e reconstruir inúmeras vezes a própria imagem.

     Seu corpo era político e sua androgenia antecipava a luta da comunidade LGBT. “This Is Not America” fez bonito pelo fim do totalitarismo da Guerra Fria. Quando Guiga me falou numa segunda bem cedo que ele tinha partido de câncer, fiquei pensando em sua figura de cabelos naturalmente brancos, como apareceu nas últimas vezes e silenciosamente saindo de cena. Definitivamente, Bowie é mais do que sua música.

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