O TRIUNFO DO GERÚNDIO

Postado dia 26 de fevereiro de 2014, em Natureza e Sociedade

Esses dias que me ausentei do blog estive pensando que escrever é como fazer a mala. Na falta da palavra exata precisamos empregar muitas; sem saber qual vai ser a roupa certa carregamos uma mala enorme. A roupa certa e a palavra exata proporcionam muita satisfação. É animador poder escrever iniciante em vez de “gente que está começando a aprender”, é reconfortante que num lugar estranho, bem longe das nossas gavetas, nos viramos com um punhado de peças. Mas trabalhar com pouco é arte de craques. Não é casual que sejam os poetas e não os tabeliões, que extraem das palavras o máximo rendimento.


Pensava nisso ao contemplar o triunfo irremediável do gerúndio. A primeira vista uma moda tão passageira e circunscrita quanto “broto”, o gerúndio ultrapassou fronteiras e, pelo tempo que já dura, parece ter vindo para ficar. E, no entanto, é o contrário da síntese e da exatidão: propõe dizer com mais palavras o que se resolvia antes com a brevidade do infinitivo. Fazer, mostrar, telefonar em vez de estar fazendo, estar mostrando, estar telefonando. Qual é o misterioso prazer que essa profusão de palavras proporciona? De onde vem a recompensa para esse esforço contínuo?


Dizem que o hábito surgiu das ligações de telemarketing, se tiver nascido nessa área passou rápido para secretárias, porteiros, recepcionistas, assessores de imprensa, pedagogos… e até você ouviu a sua própria voz pronunciar com assustadora naturalidade “vou estar mandando”. Penso que definitivamente se o gerúndio alcançou assustadora popularidade é porque devia haver, ao menos inicialmente, uma espécie de avidez, de demanda reprimida que ele revelou e satisfaz. Não como a palavra exata que, finalmente encontrada, cessa a aflição da procura e nos devolve o poder de acuidade, nem como a peça de vestuário que aplaca sem maiores complicações a angústia do “com que roupa?”. O desejo que o gerúndio satisfaz é justamente de complicação. Ou do reconhecimento que isso garante.


Possuir palavras, como se sabe, é um privilégio- tanto maior quanto menor for o acesso ao conhecimento. Falar com desenvoltura é um desejo mal satisfeito: palavras e fórmulas são escassas no repertório da maioria. Nossa língua, ou a pouco intimidade com ela, é instrumento da exclusão, e seus rebuscamentos servem ao propósito de multiplicar as barreiras (escrevemos em português destinatário e remetente quando em inglês bastam toe from; precisamos de excelentíssimo, ilustríssimo, e de digníssimo senhor quando em inglês dear sir resolve tudo). O poder fala difícil, falar difícil é um poder e todo mundo que se sentir um pouquinho poderoso. Por isso, as palavras simples tornam-se suspeitas. Basta ver o que aconteceu com os verbos pôr e botar. Aos poucos as galinhas passaram a colocar ovos, os carnavalescos a colocar o bloco na rua e o incendiários a colocar fogo.


Mais que ninguém caia na tentação de acreditar que os simples vão enfeitar seu discurso com palavras que façam parecer o que não são. Liquidação de loja cara, no Brasil, é sale, ou até, vendita promozionale. Com, afinal, quem queremos estar parecendo?

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AÍLA ALMEIDA

Leitora compulsiva, levo a vida a assistir filmes, escrever textos que me acalma e fazer bolos. Queria saber desenhar e costurar. Quero passar um tempo em Paris, pular de para quedas, criar mais um cachorro. Queria se poliglota, estudo inglês, francês e italiano a anos. Ao que tudo indica nasci no século errado.

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