Natureza e Sociedade

CONSUMO E FELICIDADE

 

 

       Li essa semana que em 2016 1% dos mais ricos do mundo vai superar os 99% mais pobres. O paradoxo é que numa sociedade em que a cada dia pessoas ficam mais ricas, proporcionalmente ficam menos felizes. Os bens necessários a uma vida feliz não podem ser comprados com dinheiro. Não se compra no shopping com cartão de crédito, o amor, a amizade, os prazeres da vida doméstica, o companheirismo, a autoestima por um bom trabalho, o respeito mútuo. Tais bens, intangíveis por natureza, não podem ser adquiridos no mercado, por isso a felicidade não pode ser comprada.

       Um dos efeitos de manter a busca da felicidade atrelada ao consumo de mercadorias é tornar essa busca interminável e a felicidade sempre inalcançada. Se não se pode chegar a um estado de felicidade duradouro, então a solução é continuar comprando, com a esperança de que a próxima linha de produtos superfícies de usar ou a nova tendência outono-inverno redima os incansáveis buscadores de felicidade. A grande cartada dos mercados foi transformar o sonho da felicidade de uma vida plena e satisfatória em uma busca incessante de “meios” para se chegar a isso.Os principais meios para atingir uma vida feliz são mercadorias, mas não apenas objetos que servem ao consumo. Quem busca uma marca, uma grife, um logo, deseja o reconhecimento que isso irá lhe proporcionar perante os outros.

       Falando nessa felicidade fabricada e comprada lembro do mito grego de Tântalo, filho de Zeus que era um ser humano que ousou adquirir e compartilhar um conhecimento proibido, descobrindo coisas que estavam vedadas à humanidade, sendo apenas de sabedoria divina. A punição divina que recebeu foi ficar eternamente mergulhado num regato, mas quando ficasse com sede e tentasse beber a água, esta desaparecia. Quando ficasse com fome e fosse pegar algumas frutas que estavam amarradas numa coroa em sua cabeça, o vento soprava e as levava para longe.

 

       A mensagem do mito é que a felicidade se encontra na inocência. Quando perderem a inocência, os seres humanos não serão mais felizes. Não se satisfarão com o que já tem, sempre buscando mais e cada vez menos satisfeitos quando conseguirem os seus desejos, pois quando os realizarem, o seu apetite não ficará satisfeito e procurarão outros objetos de apreço para buscar. Mito altamente atual e condizente com a nossa sociedade de objetos, pessoas e coisas efêmeras e descartáveis.

 

 

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