Na Estante

QUANTO LI LEITE DERRAMADO DE CHICO BUARQUE

Leite Derramado (2009) é o quarto livro de Chico Buarque e o primeiro que leio dele. Me surpreendi pela riqueza de situações costuradas numa envolvente narrativa. O livro tem um bem construído cenário de História, psicologia, Economia, Sociologia, Política e Artes, além de traçar uma caricatura muito bem desenhada do Brasil. O  texto conta a estória de Eulálio Montenegro D’Assumpção, um centenário senhor carioca que no seu leito de morte num hospital público, relembra fatos de sua vida.

            A narrativa é sustentada exclusivamente nas memórias de Eulálio, constituindo sua identidade, o que me lembrou um pouco Cubas de Machado de Assis. O jogo histórico é extremamente criativo, cada acontecimento de sua vida privada é entrecortado por acontecimentos da vida pública. Nas suas memórias estão os casarões de Bota Fogo, a ocupação desordenada da Tijuca e a explosão imobiliária de Copacabana. Há referências a belle épóque, o crack da bolsa de Nova York, a Segunda Guerra Mundial, ao período da Ditadura Militar. Até a vinda da família real portuguesa para o Brasil é citado porque segundo Eulálio seu trisavô teria vindo junto.

            Com o personagem é possível compreender os costumes, tradições e modos de vida. As mudanças políticas e econômicas nos mostra diretamente o contexto educacional em que a escola era para poucos e a instrução um privilégio da elite. O livro apresenta o Rio de Janeiro como uma cidade conservadora com padrões morais frágeis e de aparência, além do preconceito racial e social preservados pela elite econômica. Por pertencer a uma família socialmente abastada o personagem fala que somente a menção do seu nome era necessário para “abrir portas”, É um livro que merece ser lido, não é genial, mas agrega conhecimento. É uma obra lindamente triste porque parece incrivelmente real. Leitura leve, um deleite para aqueles que se permitem viver, nas palavras do outro. Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.

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