Na Estante

QUANDO CONHECI O MUNDO

 

        Se chamava Fátima, já contava mais de cinquenta anos e a vida tinha sido uma sucessão de dificuldades. Quando menina soube que era tão magra e sua pele tão fina que dava para ver as veias, que era Fátima porque sua mãe tinha tido dificuldades na gravidez e tinha prometido em homenagem a Nossa Senhora que apareceu em Fátima em Portugal que assim seria o seu nome. Ela tinha 7 irmãos e era a filha do meio, criou-se acostumada a herdar sobras, as vezes dos irmãos, as vezes dos mais abastados da cidade. Com treze anos foi trabalhar em casa de família e percebeu que poderia ser útil, não tinha salário, mas podia comer o que sobrasse dos patrões e de vez em quando ganhava uma roupa, shampoo e creme para o cabelo, a vida tinha finalmente melhorado e tinha até um batom que durava 24 horas.

        Cedo namorou e viu a oportunidade de sua vida, alguém olhava para ela, poderia ter sua própria casa e crianças somente suas, não precisaria dividir. Logo ficou grávida e o marido o que ganhava gastava a metade no Istambul, com as moças de lá. Grávida teve que trabalhar nas casas até Gracy nascer, a menina era loura, por isso merecia um nome de princesa. Passou a aceitar empregos em que pudesse levar a menina e a ser cada vez mais grata aos patrões.

       O tempo passou Gracy ficou moça, mas passou a sofrer dos nervos, entrando em transes tão profundos que na maioria das vezes esquece de si. Perdeu as contas de quantas vezes o marido saiu em busca de bares e mulheres e de quantas donas de casa despóticas teve que atender, a última fazia ela trabalhar mais de 14 horas por dia, lhe sobrecarregava de tantas tarefas, que ficou mais magra e o cabelo caiu. Mas alguém lhe disse que ela era gente que poderia ser um pouco mais do que somente serviçal.

        Fatima mobilizada pelas crises de esquizofrenia de Gracy pensou que precisava mudar. E mais uma vez enfrentar a vida e o mundo, só que além do fogão, do brilho das panelas, do serviço pesado das casas de família que trabalhava. Lhe disseram que ela cozinhava bem, e passou mesmo com extrema timidez e aquele sentimento de medo que lhe acompanha desde a infância a desejar estudar. Terminou o curso regular em aulas suplementares e pensa em pegar estrada até a capital para estudar formalmente gastronomia, só o nome e o pensamento já lhe deixam importante.

Cozinheira

        Saiu da última dona de casa despótica e resolveu que a filha dela era mais importante do que o filho da patroa. Encontrou um grupo religioso para lhe ajudar no fortalecimento espiritual e psicológico, encontrou vários empregos como freelance e agora não trabalha para ninguém, mas para si mesma, atende seus interesses, ganhou roupas novas de uma mulher de fora que ela atende duas vezes por semana e solenemente passou a ignorar o marido, não que tivesse coragem de manda-lo embora, mas não se importava mais com ele, era apenas um componente inanimado da casa e da vida. Percebeu o mundo e viu que sempre era possível dá um passo adiante e quem sabe no próximo passo chegaria a faculdade de gastronomia.

 

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