Na Estante

O CASAMENTO DE NELSON RODRIGUES

 

 

Recebi o romance O Casamento (1966) de Nelson Rodrigues no primeiro mês em que fiz assinatura de um clube de leituras, acostumada as suas crônicas estranhei o romance, único dos seus textos que foi publicado originalmente em livro. Meio relegado pela crítica, podemos pensar que foi pelo seu caráter de subversão aos costumes sociais dos anos 1960 no Rio de Janeiro. No Brasil vivíamos sobre o sistema ditatorial e a revolução sexual ainda não tinha alcançado o país com muita força.

 

O enredo do romance se concentra às vésperas de um casamento, do casamento de Glorinha, a filha mais nova das quatro de Sabino, dono de uma imobiliária no centro do Rio de Janeiro. A narrativa é densa com realizações de desejos não moralmente aceitos das personagens, cabendo ao narrador mostrar quem eles realmente são, mas sem critica-los ou emitir qualquer juízo de valor a respeito deles. A realização e a não realização da sexualidade permeia a temática da obra. As preocupações giram em torno de questões relacionadas ao desejo sexual, como homossexualismo masculino e feminino, adultério, castidade, masturbação, celibato.

O tempo da narrativa antecede as 24 horas do casamento da filha preferida de Sabino, o narrador tem acesso ao tempo passado, e vários acontecimentos remotos são narrados, possibilitando a construção do pensamento de vários personagens. Figuras socialmente respeitáveis e sacralizadas como padre e médico são desconstruídos humanos e portadores de desejos. Eu gostei da obra, principalmente pela discussão da sexualidade humana e especialmente da mulher, o que torna o livro ainda atual. Confesso que a linguagem desbravada, sem nenhum tabu, ainda é forte e densa, mas muito válida para observar as pessoas por traz das máscaras sociais.

 

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