A EXPERIÊNCIA DE LER ULYSSES DE JAIME JOYCE

Postado dia 24 de outubro de 2016, em Na Estante

james

      Passei a vida ouvindo a fama que Ulysses de Jaime Joyce era um livro incrível, difícil de ler e revolucionário. Esse ano resolvi comprar o livro, quando me deparei com um calhamaço de mais de mil páginas de escrita sem linearidade, de uma musicalidade discreta mais profunda, encarei o desafio. É o tipo de leitura que é capaz de lhe retirar da zona de conforto do hábito de um enredo lógico e certinho. Dividi a leitura em exatas sessenta páginas por dia, sem interrupções, e as vezes eu lia em voz alta os seus neologismos.

James Joyce statue in Dublin

      Ninguém ler Ulysses sem concentração, porque o mais fácil é perder o fio da meada, também não conto as vezes que tive que reler alguns trechos para me situar. A história conta um dia na vida de um homem comum, Leopoldo Bloom, não existe ponto alto ou desenrolar de tramas, tudo é feito como num dia comum, mas os pensamentos de Bloom abrem janelas para alegorias de toda a cultura clássica ocidental, tratando esse dia como se fosse a Odisseia de Homero, usando diferentes formas de contar essa historia.

Colorful paper wall #1

      O texto é construído usando prosa, fluxo de consciência, verso. O leitor não deve esperar constância, algumas partes eu fiquei cansada, parando um tempo para me recuperar, Ulysses é o tipo de livro em que o todo parece mais agradável do que as partes. Imagino que com uma nova leitura outros aspectos possam surgir com novas interpretações. É uma história mundana do cotidiano que se faz erudita, com a contextualização social e histórica, com elementos que falam de religiões, romances, adultério, prostituição e até mesmo literatura com grandes trechos em que se discute Shakespeare.

Dubliners in Bloomsday

      Ulysses é um livro para ser estudado e não apenas lido. O humor de Joyce é afiado e consciente, ele representa o humano com todas as suas imperfeições e bem próximo do público que pretende atingir. Trata-se sim de uma obra modernista, centrada em aspectos de incertezas, subversões, desconstrução. Sem medo de ser lugar comum, reafirmo o quanto que Ulysses é um livro difícil e que é preciso para compreende-lo subverter as próprias verdades, realizando a leitura num patamar acima do convencional. Não diria que mudou minha vida, mas me aproximou consideravelmente da arte em sua essência mais fundamental. Recomendo a leitura paciente desse magnus opus.

 

Comentários

AÍLA ALMEIDA

Leitora compulsiva, levo a vida a assistir filmes, escrever textos que me acalma e fazer bolos. Queria saber desenhar e costurar. Quero passar um tempo em Paris, pular de para quedas, criar mais um cachorro. Queria se poliglota, estudo inglês, francês e italiano a anos. Ao que tudo indica nasci no século errado.

Postado dia 24 de outubro de 2016, em Na Estante

O CASAMENTO DE NELSON RODRIGUES

 

Recebi o romance O Casamento (1966) de Nelson Rodrigues no primeiro mês em que fiz assinatura de um clube de leituras, acostumada as suas crônicas estranhei [...]

LEIA MAIS
Postado dia 24 de outubro de 2016, em Na Estante

A POESIA VIRA VIAGEM EM JOÃO CABRAL

 

A Literatura como Turismo (2016) de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) nos lembra que o escritor é mais cultuado do que lido. Sua atividade literária f[...]

LEIA MAIS
Postado dia 24 de outubro de 2016, em Na Estante

UMA GARÇA NO ASFALTO DE CLAUDER ARCANJO

 

O mundo dos livros tem seus mistérios e um dos que mais gosto é encontrar pessoas que compreendam o meu amor pelas letras, isso não tem preço. Numa manhã de sábad[...]

LEIA MAIS
Postado dia 24 de outubro de 2016, em Na Estante

DESCOBRINDO O MUNDO COM CLARICE LISPECTOR

 

     Clarice Lispector é um mistério para todos os que se aventuram a entrar em seu mundo. Li “Todos os Cantos”, volume com as [...]

LEIA MAIS