CARTA PARA CLARICE LISPECTOR

Postado dia 14 de setembro de 2015, em Na Estante

clarice

      Cara Clarice, fico me perguntando se chega até você todo o sucesso de seus livros, de suas frases e de sua imagem na internet, afinal no seu tempo os escritores não eram celebridades. Lembro que desde o início da minha adolescência iniciei uma amizade com você que foi se aprofundando com o tempo e indo além dos domínios de Macabeia. Nosso primeiro encontro foi nas páginas da minha velha enciclopédia britânica seu aspecto era tão longilíneo que me lembrava um mistura de mulher e gato, mais fascinante para mim do que seus textos era uma história que dizia que você tinha gasto seu primeiro salário numa livraria, até receber meu primeiro salário guardei essa vontade e assim o fiz tentando lhe copiar.

      Nosso segundo encontro foi com Laços de Família e a cada conto eu seguia um caminho de volta que me levava até você. Com você aprendi a não ter medo de palavras, a entender que palavra é como veneno mata ou pode curar. Guardei segredo sobre você, e sempre disse que preferia Machado de Assis porque seus textos eram tão bons que imaginava como sendo algo absolutamente meu. Soube que seus livros foram publicados nos Estados Unidos com muito sucesso e que agora você figura em livrarias enormes e suas frases são escritas em estações de metrô naquele grande país.

      Clarice você se tornou um dos grandes pilares da nossa literatura, você foi capaz de criar novos significados e sintaxe para a língua portuguesa. Você é exigente e entrar no seu mundo exige carne, sangue e alma. Hoje não tenho mais o ciúme infantil de tê-la somente para mim e fico feliz em ver milhares de pessoas terem a oportunidade de experimentar o mesmo estupor que eu, o mesmo espanto das coisas comuns que você suscita. O peso de sua influência seguirá em minha vida como na de muitos, transformando visões e palavras em muitas línguas.

Comentários

AÍLA ALMEIDA

Leitora compulsiva, levo a vida a assistir filmes, escrever textos que me acalma e fazer bolos. Queria saber desenhar e costurar. Quero passar um tempo em Paris, pular de para quedas, criar mais um cachorro. Queria se poliglota, estudo inglês, francês e italiano a anos. Ao que tudo indica nasci no século errado.

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