Na Estante

A SENHORA DA CASA

        Não casou, tinha ficado para tia, mas tudo bem isso era o de menos perto de tantas tragédias que tinha enfrentado durante a vida. Quando jovem viu sua casa ser violada por bandidos de forma banal, a mãe e o irmão mais velho foram assassinados, ela nunca tinha se sentido tão desprotegida e abandonada, ganhou abrigo na antiga casa dos avós, pais do seu pai com quem não tivera qualquer contato até os vinte anos. Embora com frieza e um certo distanciamento tinha uma casa segura novamente e estava longe dos que mataram sua família.

             Mudou-se com o pai e os cinco irmãos para morar de favor na casa dos parentes, sobreviver era a palavra do dia, mas continuaria por longos anos alimentando o sonho de ser cantora. Quem teria graça e talento para ganhar um concurso regional com a voz mais bonita? Quem além dela tinha sido convidada para gravar um disco? O namoro de infância com o soldado de policia estava cada vez mais morno, moravam em cidades diferentes e ele era galanteador, achava ela linda e encantadora, mas tinha a mesma opinião sobre outras mulheres.

           A casa em que vivia era ponto de apoio para todos da família que chegavam, e um primo separado passou a morar lá e a receber apoio e proteção das tias solteironas. Ele era simpático, falante e extremamente mulherengo. Teodora já não gostava do namorado de infância e não teve cerimonias em saber que o primo bonitão antes conquistara sua irmã mais nova. Começou um romance as escondidas, que alguns anos depois quando todos ficaram sabendo foi um escândalo sem tamanho. A ex mulher do primo se sentiu traída e arquitetou uma campanha difamatória sobre sua vida moral.

            Ela sentiu tanta vergonha que passou a se fechar em casa, suas saídas se limitavam ao trabalho na repartição pública que o tio político tinha conseguido. Era datilógrafa, tinha letra bonita, sabia copiar e tinha terminado o segundo grau. Era um bom emprego, muito melhor que ser professora de criança como as outras primas. Nunca gostou muito de criança, o choro delas e a energia as irritava profundamente, e mesmo no auge da juventude sempre disse que não seria mãe.

            Os anos passaram e ela continuou o namoro com o primo bonitão, os irmãos saíram de casa, cada um seguiu seu caminho, o pai cada vez mais dependente precisava dela para todos os cuidados da vida. Teodora cuidava pacientemente e dizia ser essa a sua função: cuidar. Não se preocupava em ter casa, em casar ou ter filhos, o pai era o mais importante. Dizia com orgulho moral que namorava a muitos anos, morando na mesma casa que o namorado mais continuava virgem, imaculada seguia os princípios que lhes foram ensinados por sua mãe. Os comentários da campanha difamatória sobre a sua moralidade não eram a expressão da verdade.

            Um dia o namorado foi morto numa rua em um assalto banal, ela se fez só tristeza, mas disse a todos que não era viúva e que não deveria nem queria ser tratada como tal, era virgem e ele fora apenas um namorado. Aos poucos foi perdendo as formas, já não se fazia bonita, não pintava a parte de baixo dos olhos rasos, não usava roupa nova, não tocava seu violão. Mesmo ainda tendo sido cortejada disse não a todos, continuava orgulhosa e se sentindo muito especial para permitir que qualquer um entrasse na vida.

            Com os anos foi ficando mais parecida com a tia solteirona do que com a mãe da juventude. Passou a determinar o que era padrão de moralidade, o que era bom, o que era ruim, para que cada coisa servia e o que era preciso para ser bom filho, ou para ser uma mulher honesta. A morte lhe visitou de novo, levou o pai e depois as tias solteironas. Ela ficou meio atordoada, sem saber o que fazer, passara a vida na repartição pública, cuidado do pai, da casa e das tias, pela primeira vez só tinha ela, simplesmente ela, não tinha mais obrigações com os outros so consigo mesma e ela teria que aprender o que fazer.

            Se viu senhora da velha casa, companhia do silêncio e das lembranças que as grossas paredes tinham testemunhado. E pensou em mudar, mudou a posição dos móveis, se desfez de alguns, comprou outros novos, manteve retratos de todas as gerações, aumentou o jardim, cuidou do papagaio da tia solteirona, comprou copos, muitos copos e louças de todos os tipos e tamanhos. A casa era sua, poderia ficar como quisesse. Não precisava, nem sentia mais vontade de se fazer bonita, mostraria a todos seu capricho e virtuosidade através da casa.

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