Na Estante

A LOUCA LUCIDEZ DE BUKOWSKI

         Tenho uma amiga escritora que sabe além de técnicas de gramática, ela respeita muito as regras, mas não se preocupa tanto com a voz passiva nem com os adjetivos. As vezes peço para ela escrever, mas sei que não é assim que funciona, escrever vem de dentro é sentido. É assim que sinto os escritores de talento, pessoas que vão além da técnica. A crítica brasileira costuma ser conservadora e reagir negativamente a qualquer escritor que fuja dos padrões estéticos da boa escrita. Mostra-se exigente, principalmente em relação a elaboração e a construção do texto, da narrativa.

            Autores, hoje considerados malditos ou que romperam com o formalismo ao longo do século 20, continuam a ser desprezados por aqui como literatura menor. Para mim Charles Bukowski (1920-1994) é o mais notável. Sua escrita é crua, visceral, vomitada como dizem seus detratores, ao contrário do que acontece lá fora. Seu estilo econômico, direto e irônico construíram diálogos magistrais e modos muito peculiares de ver o mundo, a vida e as relações.

            Embora o próprio Bukowski tenha se mitificado como velho beberrão que escrevia de modo vulgar sobre prostitutas e sobre si mesmo de modo auto destrutivo, vejo suas estórias também como políticas. Há um claro inconformismo no modo como ele trata as coisas, o Estado, a exploração do trabalho, algo bem mais profundo e interessante. Ele retrata muito a hipocrisia como um comportamento institucionalizado que fizeram dos Estados Unidos a nação mais rica do mundo. Bukoswski é alma como diz seus versos: Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te.

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