Misturas Filosoficas

O MEU EU IDEAL

 

         Manter a geladeira sempre arrumada, usar pouco o celular nos fins de semana, ler menos notícia política e mais Clarice Lispector, aprender a usar todos os meus aparelhos eletrônicos, com suas 233 funções, essas são algumas metas que estabeleci para esse julho de 2016. Já faz um tempo que abandonei as metas românticas para o ano, para o mês, para a vida. Estabelecer metas menos ambiciosas como ir a ferinha agroecológica perto do museu aos sábados, comprar somente três livros por mês estabelece uma relação de satisfação imediata, porque são possíveis de serem cumpridas. Saber que cumpri um item da minha lista já é suficiente para sentir que estou no caminho certo.

take me away

         Sei que nada disso importa diante da crise econômica e política que o Brasil vem passando, mas me arrisco a dizer que se não fossemos ingênuos por natureza, estaríamos contentes com o único movimento verdadeiramente possível da existência: a nossa própria mudança. O meu EU ideal acordaria simpática, faria um suco verde sem açúcar, leria o jornal que assino todos os dias na coluna de economia, ia para o pilates, na volta tomaria banho gelado ouvindo Bah. Antes teria dado uma volta com minha cachorra no campinho do condomínio.

Floating person

         Minha casa teria flores frescas, luz indireta, menos cores, seria um ambiente mais clean e elegante. Sempre teria bons vinhos que não fossem muito caros, saberia fazer peixe no papelote no ponto certo, meu pão seria fofinho e o bolo nunca estaria doce demais. Os livros da mesinha de centro seriam realmente lidos e vistos, por mim e pelas visitas. Eu frequentaria teatros e mostras de arte entendendo tudo e dando aquelas risadas de quem faz parte do maravilhoso e restrito mundo da inteligência. Todas as centenas de livro que eu compro e os que ainda vou comprar seriam realmente lidos. Eu jamais xingaria os que estacionam nas vagas especiais que preciso. Escreveria religiosamente e publicaria três vezes por semana aqui no blog. Jamais dormiria de maquiagem, não comeria doces, tomaria menos café e acharia roupa nova uma tolice de gente fútil, jamais esqueceria de pagar um carnê, e sobretudo, falaria pouco.

Row of legs in the air wearing red boots.

         Mas existem umas coisas em meu eu real que não abro mão, a certeza de que não sou uma pessoa idealizada e que só permanecem comigo três categorias de pessoas: minha mãe, meu marido e aqueles seres estranhíssimos que gostam dos meus piores defeitos, meus amigos, e assim, eu vou dosando meu eu real com meu ideal na busca incessante por ser uma pessoa melhor.

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