A INCERTEZA DE TUDO

Postado dia 11 de abril de 2016, em Misturas Filosoficas

happy child who lost her hair due to chemotherapy to cure cancer

     A possibilidade de morrer é uma coisa curiosa, ontem fez três anos que recebi a biopsia sobre um câncer grave e a certeza que ficaria sem cabelos. Foi apenas quando a cabelereira chegou, desfazendo aquela espécie de coque que usei tantos anos, e sentindo os fios caírem entendi que estava nervosa. Até ali a ideia de ficar sem cabelos não me parecia nada de exótica. Três minutos depois me vi completamente careca.

     Quando vi meu reflexo no espelho não me reconheci, e no fundo dos meus olhos lembrei de minha avó, na casinha dela, eu parecia um pouco com ela! O pior era que fazia frio, minha cabeça estava gelada, mesmo morando em uma cidade muito quente. Descobri que passando a mão em movimentos rápidos para cima e para baixo, eu conseguia esquenta-la. Quando meu sobrinho pequeno se assustou comigo três dias depois não foi algo confortável.

     Fiquei quase dois anos careca e tomar banho nessa condição nunca foi tão bom, dava para sentir a água batendo em minha cabeça, a temperatura, a textura até ela escorrer pelo meu rosto e descer nas minhas costas. Uma experiência no mínimo diferente. Ser careca nunca foi exatamente eu, mas uma versão de mim, e porque não dizer sem exageros que tem um pouco da noção de liberdade, meu cabelo não tinha nada de especial, na realidade agasalhava minha cabeça.

     A grande sacada da liberdade é que ela é tão rara, tão especialmente rara, que provar apenas uma pequena dose dela às vezes pode ser demais. Uma vez aberta a porta que me levaria a lugares desconhecidos, só me restava seguir e tentar achar uma saída do lado de lá. Um certo dia, depois de muita dor dei uma volta completa e entendi plenamente que temos tantos interesses em nossas vidas, que não podemos ficar do lado da escuridão por muito tempo, as coisas são especiais porque elas estão passando e acabando, dia após dia.

      O câncer já não está tão forte, não vivo mais para domina-lo, mas para seguir coisas que pretendo fazer da vida, seja ela curta ou longa, mas no domínio da incerteza de todas as coisas. A doença deixou em mim uma versão mais forte e a cada dia mais madura, porque mergulhar na escuridão, tem um tanto de liberdade. A minha versão de hoje  aceita o tempo e o imperativo das incertezas com a certeza que devo aproveitar muito bem os minutos e segundos que tenho.

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AÍLA ALMEIDA

Leitora compulsiva, levo a vida a assistir filmes, escrever textos que me acalma e fazer bolos. Queria saber desenhar e costurar. Quero passar um tempo em Paris, pular de para quedas, criar mais um cachorro. Queria se poliglota, estudo inglês, francês e italiano a anos. Ao que tudo indica nasci no século errado.

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