A Magia do Cinema

A UNIVERSALIDADE DA CLIENTELA DE NICE DA SILVEIRA

 

 

         Ver o filme Nice no coração da loucura (2016) é um alento para a alma e o que existe de mais profundo no humanismo, o campo da saúde mental. Nice da Silveira (1906-1999) era uma médica psiquiatra que morava havia três anos no Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, zona sul do Rio de Janeiro, isso porque não dava para se sustentar com seu magro salário em outro lugar.  Em 1936, após descobrirem uns livros de cunho socialista em seu quarto ela foi presa pela polícia de Getúlio Vargas, sendo readmitida no serviço público somente oito anos depois.

         O filme traz esse período após a prisão e conta a história da alagoana que impressionou Carl Jung e revolucionou a psiquiatria e as artes nacionais. No filme Nice é uma mulher franzina, sempre de tailleur que não tem medo de contestar o pensamento de colegas ou superiores. Glória Pires, faz uma interpretação sóbria e digna da personagem. As filmagens foram realizadas no próprio hospital, hoje Centro Psiquiátrico Pedro II, o que acentua o tom documental da película. Nice busca em solitárias pacientes com comportamento agressivo e neles estimula as raízes da consciência perdida.

       Acreditava-se na época que a lógica dos esquizofrênicos era sem unidade. Quando estes começaram a desenhar mandalas, surpreendia que fossem capazes de criar uma linguagem. Nas imagens dos pacientes de Nice estão as raízes do inconsciente coletivo, de que fala Jung, o conjunto de imagens que revela nossa posição ancestral para medos comuns, encontrados desde os primeiros registros da pré-história. Nice construiu o alicerce do tratamento de seus pacientes a partir da certeza de que eles evoluíram para estados de esquizofrenia como consequência de perdas afetivas. Foi o pontapé da campanha antimanicomial no país, em favor de tratamentos em centros abertos que não apartassem os doentes de suas famílias.

       O filme vale a pena ser visto porque lembra ao nosso mundo social, qual o entendimento e como lidamos com as questões de doença mental, ainda estigmatizada e negligenciada por boa parcela de pessoas. Nice nos mostra como decifrar a essência de uma atividade que meio que se perdeu com o avanço da tecnologia: a solidariedade, a compaixão, o respeito aos que sofrem. A própria Nice nos diz que: “Aprendi muito com os loucos e isto vem a atrapalhar um pouco o conceito de razão. De vez em quando uma pessoa ajuizadíssima comete um ato de loucura que, felizmente, diz muito a ela própria sobre sua forma de viver”.

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