A Magia do Cinema

QUEM É O HOMEM ATUAL?

Fatalmente vivemos em um mundo em que legitimidade e mérito dão lugar ao engenho e a boa sorte. Dez anos depois revejo o filme de Woody Allen, Match Point (2005). Ver seus filmes é para mim sempre um prazer. Match Point é um retrato de sua época, feito com muito talento. Cenas curtas apresentam estados de alma se transformando em velocidade alucinante. As imagens de Londres, linda, e a música lírica trágica se contrapõem à leveza com que tudo se passa, a culpa em que se passa a história leva a ruína.

MATCH POINT, Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, 2005, (c) DreamWorks/courtesy Everett Collection

     É de entendimento recente a reflexão das injustiças do mundo e do direito de consciências superiores interferirem acima da legalidade para pôr ordem ao destino. Fomos condenados ao voto útil, presos entre transições incompletas. O pensamento escravista ainda está presente, ainda existem apartamentos com senzalas. Talvez ainda restem algumas utopias, dilaceradas entre a lei de Estado e a lei de consciência.

     Match Point apresenta o homem atual, aquele que quer apenas viver bem. Estar numa boa é o seu, o nosso propósito. O que contraria seu projeto é facilmente resolvido. Sua angústia vem dos riscos de frustração dos anseios de ascensão social, de beleza e harmonia. O filme pode incomodar por não gerar sentimentos excessivos, especialmente pelo que estamos acostumados como sendo diversão: ritmo intenso, violência crescente e subjetividade exacerbada do espectador. Só não podemos esquecer que depois do desfecho não estaremos mais no reino da sorte e sim da tragédia.

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